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   O Mestre Piranga

   

Quem terá sido Mestre Piranga? Pouco se sabe sobre esse escultor, o que, curiosamente, acaba não abrindo precedentes para a criação de mitos por trás de sua figura, ao contrário de Antônio Francisco Lisboa. Pela própria denominação, podem-se inferir algumas características desse escultor que revelem mais do seu trabalho do que de sua biografia. As peças de Mestre Piranga foram encontradas no vale do rio Piranga, em Minas Gerais. "Mestre" poderia revelar a função que exerceria naquela estrutura de ofício mecânico. Ombros largos, formas circulares principalmente na altura dos joelhos e nas mangas e olhos desnivelados são algumas das principais características das obras atribuídas ao artista -e nove delas podem ser vistas na Pinacoteca. "Mestre Piranga trabalha com dois universos absolutamente fundidos. Não vamos falar de maneirismo, barroco, rococó, isso serve para a Itália. Aqui, não há mais tanto o cânone, uma erudição, mas ele utiliza, por exemplo, na escultura do São Bento, a lição dos hachurados dos beneditinos do século 17, ao mesmo tempo em que aproveita a talha mais solta do Aleijadinho", explica o curador Dalton Sala, que destaca detalhes curiosos, como um passarinho pousado logo atrás do São Bento de Mestre Piranga. "Ele reproduz o santo de modelo europeu, mas coloca esse passarinho, inventa algo novo. Como não tem formação erudita, acaba por compensá-la com criatividade."

 

   

         Sua obra é reconhecida no Brasil e no Mundo, tida como um ícone da imaginária barroca mineira do século XVIII, mas seu nome e dados de sua biografia ainda permanecem desconhecidos. Suas imagens católicas têm importante valor histórico e artístico, são consideradas assemelhadas e influenciadas pela obra de Aleijadinho e alega-se que tenha sido seu contemporâneo. As peças que lhes são atribuídas possuem estilemas acentuados, como os ombros exageradamente largos, planejamentos talhados de forma sumária em sulcos profundos e movimentos circulares nas mangas e na altura dos joelhos, os olhos grandes e esbugalhados, que chamam a atenção, são a assinatura do escultor. 

     O Mestre de Piranga é assim chamado justamente por causa de peças encontradas no Vale do Rio Piranga, ao sul de Ouro Preto, terem sido atribuídas a uma só pessoa, um artesão provavelmente, por causa da freqüência das características inconfundíveis, como a rudeza escultórica. O Museu Mineiro de Belo Horizonte possui excelente acervo dessas imagens, comprado de uma coleção particular, incluindo uma Nossa Senhora da Conceição em grande porte, infelizmente despojada de sua policromia original.

        

A IMAGEM MINEIRA

 

         As primeiras imagens de devoção vieram ainda no século XVI, com os colonizadores portugueses. Durante um bom tempo, todas as peças que existiam na colônia haviam sido trazidas de Portugal e da Espanha, países da onde o barroco foi melhor reproduzido na forma de santos da igreja católica feitos em madeira. Depois da Contra-reforma, a Igreja passou a incentivar o culto às imagens para que os fiéis sentissem a presença do divino de forma mais viva, mas real, utilizando realmente os santos como intermediários entre os fiéis - que não tinham acesso a bíblia, pois não sabiam ler - e Deus. Não foi diferente no Brasil.

         Nos séculos XVII e XVIII, com o aumento da demanda, deu-se início a uma produção interna de imagens de santos, da virgem e de anjos. Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco, onde a presença da Igreja era forte, concentravam os principais artistas, tanto eruditos, como populares - os santeiros, e a produção era feita quase que em série. Já em Minas Gerais, devido a forma de povoamento, em vilas e arraiais, e ao isolamento em relação aos portos no litoral, o catolicismo se consolidou de forma bastante natural, pela procura e necessidade de devoção dos fiéis. Entre os produtos de consumo imediato, demanda atendida pelos artesãos locais, estavam as imagens religiosas. O resultado foi uma variedade infinita de formas. Ao contrário da imaginária baiana, padronizada, as peças mineiras carregavam as marcas de seus artesãos autodidatas. O estabelecimento de ordens e confrarias na segunda metade do século XVIII também ajudou a popularizar a busca por santos de devoção.

         Surgiram os grandes mestres - Francisco Xavier de Brito, Aleijadinho, Mestre de Piranga, Vieira Servas - e as imagens barrocas brasileiras ganharam fama internacional. Com isso, veio a problemática da preservação. Durante séculos nada foi feito para conservar esse patrimônio. As peças de arte sacra, que antes só possuíam valor religioso, começaram a ter valor material e por isso, deixaram de ser tidas como sagradas. Imagens passaram a ser roubadas de igrejas e até dos oratórios em casas de família. Mesmo com os sucessivos tombamentos instituídos após a criação do serviço de Patrimônio Histórico na Era Vargas, pouca coisa foi feita e grande parte dos templos dos séculos XVIII e XIX estão em ruínas. A dispersão desse rico acervo dos seus locais de origem, fundamental para compreensão histórica, cultural, artística e religiosa de uma época, foi inevitável. Mesmo com a existência de 46 museus de arte sacra - apenas cinco deles de grande porte - a maioria das antigas imagens está nas mãos dos colecionadores particulares. 

 

 Fonte: Antiquário Santa Tereza

 

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