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O Santuário do Senhor Bom Jesus

Implantado sobre uma colina e composto pela igreja e um conjunto de casas baixas destinadas a abrigar romeiros nas épocas de festas, numa disposição que segue a tradição arquitetônica das capelas portuguesas de peregrinação devotada ao Senhor Bom Jesus de Matozinhos. Assim pode ser descrito o Santuário do Senhor Bom Jesus do Matozinhos, construído no Distrito de Bacalhau.

            Os altares laterais foram provavelmente executados na primeira década do século XIX, podendo atribuir-se sua autoria ao entalhador Vicente Fernandes Pinto ou a José Meirelles Pinto, que os teriam confeccionado em data anterior a 1808, ano da sua morte. Estes retábulos constituem, em linhas gerais, uma simplificação dos retábulos em estilo rococó, já revelando uma tendência neoclássica (...).

            A realização dos púlpitos também é controvertida, não se encontrando referências sobre sua fatura nos livros da irmandade, supondo-se que teriam sido adquiridos de uma outra capela. Apresentam formas sinuosas e elegantes, com elementos com talha do período joanino.

            Mais do que a talha, a pintura faz da capela do Senhor Bom Jesus uma obra evidentemente notável. Destaca-se não somente pela sua qualidade, mas também pela unidade no programa decorativo, conferida pelos forros da nave e capela-mor, pelos quadros da Via-Sacra que enriquecem o conjunto, pelos painéis do coroamento do arco-cruzeiro, em cartelas emolduradas por concheados e flores, e pela pintura do camarim do Bom Jesus localizado atrás da Capela-mor. Nos trabalhos de pintura distingue-se o nome de Francisco Xavier Carneiro, que ali trabalhou de 1806 a 1840, e parece ter empreitado todo o serviço de pintura da igreja.

            A composição do forro da capela-mor obedece ao padrão característico das obras de Francisco Xavier. Sua estruturação é definida pelo medalhão solto no eixo longitudinal da abóbada (...). A cena do medalhão representa a Ascensão do Senhor e, curiosamente, o desenho é excessivamente contido e duro e a figura do Cristo possui anatomia grosseira, o que sugere uma repintura do painel original ou a participação de um pintor menos habilidoso (...).

            Na extensa abóbada da nave (...) um medalhão possui moldura exuberante em concheados, enrolamentos e rocalhas, de gosto rococó. A cena central, representando a Santíssima Trindade, com o Pai Eterno e o Filho, mostra novamente as figuras com pouco movimento e anatomicamente imperfeitas, o que pode indicar, tanto a menor habilidade do artista na figuração humana, quanto a participação de aprendizes ou pintores de qualificação inferior na realização do trabalho ou, ainda, repintará.

            Além dos trabalhos referidos, cabe mencionar as tábuas com pintura marmorizada colocadas no assoalho do presbitério, possivelmente em substituição das antigas deterioradas, e o forro do átrio, composto em painéis marmorizados com cartela ao centro . Os seis quadros das paredes laterais da capela-mor mostram cenas da Paixão de Cristo e, embora não possuam referência documental específica, apresentam semelhanças com o trabalho dos forros da nave e da capela-mor (...).

            Na pintura do camarim do Senhor de Matozinhos, localizado atrás do altar-mor, o desenho das rocalhas e das flores é mais livre e delicado e, nas figuras de anjos e querubins, notam-se traços mais suaves e expressivos. Suas cores foram, em parte, alteradas pela luz direta das janelas próximas, incidentes durante mais de um século e meio (...).

            No acervo artístico deste Santuário (...) nota-se a boa qualidade das peças que vão desde as grandes e suntuosas imagens do altar-mor, até às “pequenas de palmo" dos nichos dos colaterais (...). A imagem mais antiga é a do Bom Jesus colocada atrás do altar-mor, da qual não há referência documental. Sua expressividade e movimentação permitem identificá-la como obra ainda ligada ao terceiro quartel do século XVIII.

  A Irmandade e o Jubileu do Bom Jesus de Matozinhos

            À Irmandade competia a organização do Jubileu. Como já se referiu anteriormente, não se sabe exatamente o ano da sua fundação, que foi certamente anterior a 1781. No entanto, parece que apenas solicitaram ao rei a provisão dos seus estatutos cerca de 1792:

            Dizem o juiz e mais irmãos da Irmandade do senhor Bom Jesus de Matozinhos, ereta no Arraial do Bacalhau, freguesia de Guarapiranga, distrito da cidade de Piranga, para governo interno da dita Irmandade fizeram um compromisso junto constante de 16 capítulos, onde se regulam as entradas e modos de dirigir a atual irmandade, pelo que respeita a economia mais ainda pelo que pertence ao culto divino e bem espiritual tanto dos vivos como dos mortos porque por firmeza e validade deste compromisso necessitam de provisão confirmatória de V. Majestade. Nestes termos recorrem a V. Majestade se digne em serviço (...) concederdes a referida provisão 2.

            Este compromisso da Irmandade constava de 16 capítulos que, de um modo geral, se assemelham aos das Confrarias do mesmo tipo pelo que não os vou passar a expor em pormenor 3. De ressaltar, contudo, a particularidade, que não encontrei em qualquer dos outras, que é o de ser o primeiro a declarar, em item próprio, não existirem entraves sociais ou raciais para a entrada de irmãos 4:

            Toda a pessoa que se quiser assentar por irmão nesta irmandade do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, seja homem ou mulher, Branco, Pardo, ou Preto, Escravo ou Livre, se lhe fará assento em hum livro que haverá para esse efeito (...) 5.

            Os mesmos estatutos estabelecem a data dos Jubileus, sem referir se tinham sidos concedidos por Breve Apostólico:

            Serão obrigados os ditos oficiais da mesa a fazer o Jubileu da Porciúncula 6 no dia 2 de Agosto, e o de quinze dias que principiará no dia 29 de Setembro, dia de S. Miguel Arcângelo 7(...).

De acordo com as informações obtidas através da Prefeitura de Piranga, por intermédio do Arquivo Histórico Nilo Gomes, a festa anual ao Bom Jesus fixou-se em Agosto, entre os dias 1 e 15. Por documentos de pagamento a músicos e a sacerdotes para os sermões e confissões, sabe-se que se realiza já desde o século XVIII. Infelizmente não consegui obter nenhum exemplar de programa ou fotografias das cerimônias.

Fontes: 1 Texto de pesquisa fornecido pelo IEPHA/MG e da autoria de MIRANDA, Selma Melo, Arquitectura religiosa no Vale do Piranga, in "Revista Barroco", nº12, Belo Horizonte. Imprensa Universitária, 1984/85, pp. 53-80.

2 AHU, CU-B/MG,cx. 137,doc. 64.

3 Encontram-se trancritos em FALCÃO, Edgar Cerqueira, ob.cit., pp. 34-38.

4 Relembro que no Brasil colonial existiam irmandades diferentes para brancos, pardos (mulatos), pretos e escravos.

5 AHU, CU-B/MG, códice 1532, cap.1º, fl.3. 6 Em 1216, S. Francisco de Assis conseguiu do papa Honório III indulgência plenária, semelhante à obtida nas cruzadas contra os infiéis, para todos os que visitassem a igreja da Porciúncula ou sustentassem com as suas ofertas iniciativas da Igreja. Ao longo dos séculos essa indulgência manteve-se e passou a poder-se ganhar não só naquela igreja, mas em todas as franciscanas e nas catedrais e paroquiais cada 2 de Agosto.

7 Temos aqui mais uma ligação entre o culto ao Bom Jesus de Matosinhos e o de S. Miguel.

 

 

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